quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Babel Bibliotecária

No princípio Deus criou o bibliotecário. Disse Deus: "funda bibliotecas por todo
o mundo, seleciona os documentos de melhor qualidade, organiza a informação,
presta serviços de excelência e vela pelo interesse dos usuários.

Mantém atualizado o catálogo e confortável a sala de leitura, porém não escutes
a Voz das Trevas, porque se o fizeres te confundirás e desaparecerás como
profissional" .

O bibliotecário fez tudo quanto Deus lhe pediu. Ergueu bibliotecas em belos
edifícios e nelas colocou todo tipo de documento criado pelo homem para
registrar a informação: tabuletas de argila, rolos de papiro ou pergaminho,
tábuas de pergaminho ou papel, livros, revistas, diários e boletins impressos e
toda a gama de documentos iconográficos, audiovisuais, tridimensionais e
legíveis por computador, incluindo aqueles disponíveis na Internet.

Inventou e reinventou o catálogo (e com ele a recuperação da informação), que
evoluiu desde as antigas bibliotecas sumárias [sic] até as bibliotecas
ciberespaciais.

O mesmo sucedeu com múltiplas ferramentas e métodos de trabalho: normas de
catalogação, sistemas de classificação, vocabulários controlados, a análise por
facetas e a indexação pré e pós-coordenada, o serviço de referência e o de
circulação, incluindo o empréstimo interbibliotecá rio e a comutação
bibliográfica.

Capacitou as pessoas em todo o necessário para acessar a informação. Adotou
normas de qualidade e definiu indicadores de desempenho específicos para as
bibliotecas, com o fim de avaliar e melhorar seus processos, produtos e
serviços.

Para tudo ele utilizou a tecnologia de ponta disponível em cada época e em cada
lugar, desde a punção requerida para a escrita cuneiforme até o computador e as
telecomunicações do século XXI.

Ergueu sua voz contra a censura e em defesa do direito de todos à informação.
Elevou sua carreira aos mais altos níveis universitários, convertendo- a em uma
profissão útil, nobre e digna.

Entretanto numa manhã, enquanto o bibliotecário realizava suas tarefas
habituais, ouviu uma voz rouca e tenebrosa que lhe chamava: "Vem, aproxima-te" .

O bibliotecário voltou a cabeça e percebeu entre incrédulo e surpreso, a visão
de uma árvore seca e retorcida, de negro tronco e negros ramos. A voz insistiu:
"Vem, aproxima-te" .

Temeroso, mas cheio de curiosidade, o bibliotecário se aproximou com precaução.
Uma sensação sobrenatural se apoderou dele e o negro manto da noite cobriu o
local, em pleno dia.

"Vem, aproxima-te, não tenhas medo" - voltou a escutar.

"É a Voz das Trevas?" - perguntou o bibliotecário com ingenuidade. "Deus me
recomendou que não te escute".

"Não digas bobagens; dialoguemos e verais que esta conversa te interessa" -
disse a Voz.

O bibliotecário se aproximou da estranha planta, o suficiente para ver as
víboras que se arrastando pelo solo começavam a enroscar-se no tronco.

"Quem é?" - perguntou intrigante a Víbora Primeira, mostrando sua venenosa
língua de duas pontas.

"Sou o bibliotecário" - respondeu este com segurança.

"Ha, ha, ha!... Pobre... Em que mundo vive? Não sabes que agora te chamas
documentalista? ".

"Que estás dizendo?" - interveio a Víbora Segunda - "o correto é especialista da
informação ou cientista da informação".

"Gestor de informação, querida, os outros termos já eram" - interrompeu a Víbora
Terceira.

"Melhor em inglês, information manager" - opinou a Víbora Quarta - "e se for
chefe: "chief information officer” ou “CIO".

"Eu prefiro gestor do conhecimento, knowledge manager ou chief knowledge
officer" - ajuntou a Víbora Quinta com ares de sabe-tudo.
"Mas com esses títulos, ninguém vai saber quem eu sou e o que faço”.- protestou
o bibliotecário“.

"Precisamente, disso que se trata" - informou-lhe a Víbora Sexta - "todo mundo
se perguntará o que é que faz essa pessoa, e como ninguém gosta de passar por
ignorante, limitar-se-ão a dizer... Ahhh! Que interessante! ".

"Bibliotecário! " - debochou com desprezo a Víbora Sétima - "Não existes!
Desapareceste com o meteoro que extinguiu os dinossauros! ".

Ressoavam ainda em sua mente as risadas de zombaria dos répteis interlocutores,
quando o bibliotecário se deu conta de que, repentinamente, a visão havia
desaparecido. Invadido pelo temor, se ocultou entre as estantes do depósito.
Dali escutou a voz de Deus que lhe chamava:

"Bibliotecáááááaáááário, onde estás?... Que fazes aí?... Por que te escondes?".

"Porque me dá vergonha que me vejam nesta profissão de idiota que tenho" -
respondeu o bibliotecário, sem atrever-se a levantar a cabeça do solo.

"Quem te fez pensar que é uma profissão de idiota? Acaso prestaste atenção á Voz
das Trevas?" - perguntou Deus.

"As víboras me chamaram com insistência e não pude evitar...” - murmurou
covardemente.

Então, Deus se enfureceu com o bibliotecário e pronunciou seu severo castigo:

"Por haver escutado a Voz das Trevas viverás para sempre na confusão e falta de
identidade. Tirar-te-ão a Direção da Biblioteca que será ocupada por outros
profissionais, ainda que não saibam nada a respeito, enquanto o público será
atendido por um empregado administrativo que ganhará mais que tu. Tu te
ocuparás dos processos técnicos, e todos te farão sentir que "somente serves
para fazer fichas".

Quando solicitares um ajudante catalogador, te enviarão pessoal de baixa
qualificação, em tratamento psiquiátrico, e nunca te comprarão um tesauro
atualizado. Em média, ganharás um salário de fome e nunca conseguirás um
estatuto profissional que te proteja".

"Qualquer um virá e te dirá: "não se diz usuário, e sim, cliente" e tu o
repetirás como um papagaio, ainda que tenhas deixado a vida para satisfazer ao
usuário. Ou te dirão: "o paradigma da biblioteca não é a conservação mas o
acesso" e tu te impressionará s com a frase, embora tenhas passado séculos
facilitando o acesso.

Teu lugar de trabalho será chamado centro de documentação, centro de materiais
didáticos, centro de informação ou centro de gestão do conhecimento, e quando a
confusão entre todas estas organizações - que no final fazem a mesma coisa – for
incontrolável, então as chamarás unidades de informação ou UI. E é claro, a
sociedade não será capaz de diferenciá-las e continuarão chamando-as
biblioteca".

"Víboras nacionais e estrangeiras proporão cursos inúteis nos quais aprenderás
apenas que catalogação se chama agora representação descritiva ou descrição
bibliográfica e que a classificação passou a ser organização do conhecimento;
termos desconhecidos para coisas que tu mesmo inventaste. Além de ser
confundido, pagarás estes cursos a preço de ouro e sairás deles sabendo o mesmo
que sabias antes de inscrever-te" .

"Porei inimizade entre os bibliotecários universitários e os de bibliotecas
públicas e farei proliferar os cursos de Biblioteconomia de 1 a 5 anos, onde
todos levarão aos mesmos cargos e salários, assim permanecerão eternamente
divididos e frustrados. Jamais conseguirás estar de acordo com outro
bibliotecário" .

"Até que chegue o dia em que avalies seriamente tua profissão e tua própria
terminologia, avalies a ti mesmo e aos numerosos bibliotecários que têm
oferecido sua criativa contribuição para que, durante milênios, os seres
humanos tenham podido acessar a informação. Então, se assim o fizeres e
compreenderes, eu te perdoarei".

La Plata, 1 de marzo de 2001.

Tradução para português por Maria das Mercês Apóstolo
Revisão por Marcelo Silveira

Texto original:
http://www.bnjm. cu/librinsula/

(Texto extraído - sem porcaria nenhuma de norma da ABNT - de:
http://www.ndc. uff.br/portalder eferencia/ noticias. asp?cod=297)

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