Texto recebido pela produção do programa Radio Vivo, da Rádio Itatiaia (BH/MG)- em 05.03.2009 - logo após a discussão dos debatedores sobre a posição da Arquidiocese de Recife e Olinda frente ao aborto da menina de nove anos, estuprada pelo padrasto e que desenvolveu uma gravidez de alto risco
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Numa pequena vila do interior dessas Minas Gerais, um jovem padre assumiu a paróquia local que há anos estava vazia. Uma velha senhora que cuidava da igreja ajudou na arrumação da casa paroquial. Depois de uma faxina geral na casa e no templo o padre colocou à porta da igreja um aviso:
DOMINGO, 9H, MISSA PARA REABRIR AS ATIVIDADES DA IGREJA NA NOSSA COMUNIDADE.
No domingo, apenas a velha beata e meia dúzia de companheiras estavam presentes, para decepção do padre.
Ele então resolveu ir às ruas, conversar com as pessoas, conhecer melhor o seu arredio rebanho. Por toda parte frieza e indiferença. Aqui e ali, referências ao vigário antigo que havia "aprontado" e deixado na cidade uma triste lembrança.
Anos de abandono, dificuldades do bispo com os poucos padres da diocese, o comodismo que aos poucos foi envolvendo a todos, o fato é que a maioria não via com bons olhos a volta de um padre àquela comunidade. Na verdade todos estavam com "um pé atrás" em relação à Igreja.
O padre voltava desanimado para casa quando, ao passar diante de um boteco ouviu alguém gritar em tom de zombaria:
"Êh, sô padre, desiste que aqui a Igreja morreu!!!"
O padre parou ao ouvir aquilo, pensou em responder, mas apenas sorriu e continuou seu caminho.
Dois dias depois, um cartaz à porta da igreja anunciava:
FUI AVISADO DE QUE A IGREJA MORREU. É PRECISO, PORTANTO, PROVIDENCIAR O ENTERRO. CONFORME A TRADIÇÃO, FAREMOS, NO PRÓXIMO DOMINGO, ÀS 9 HORAS, UMA MISSA DE CORPO PRESENTE E, EM SEGUIDA, O ENTERRO DA IGREJA. CONTO COM A PRESENÇA DE TODOS.
O VIGÁRIO.
Durante o resto da semana não houve outro assunto na vila. Curiosos, todos se perguntavam e especulavam sobre o que andaria pela cabeça daquele padre. No boteco afirmavam que ele era louco varrido, o que era bem típico desses padres modernos.
O fato é que, no domingo, pouco antes das 9, a igreja já estava cheia. Toda a vila estava lá. Gente por todos os cantos, se acotovelando e olhando assombrados para um caixão negro rodeado por quatro castiçais, colocado bem diante do altar. O padre não mentira, a defunta estava lá. Murmúrios de espanto e surpresa corriam entre todos. O caixão estava fechado.
Às 9 horas o padre entrou e começou a celebração da Missa. Na liturgia da palavra foi lido o texto da Primeira Carta de S. Paulo aos Coríntios capítulo 12, versículos de 12 a 27, que falava da Igreja como um corpo onde cada um, como os membros, tem uma função e uma dignidade especial.
No texto do Evangelho de Mateus capítulo 13, versículos de 47 a 50 Jesus dizia, através de uma parábola, que a Igreja é como uma rede jogada ao mar: pesca de tudo, peixes bons e maus.
No sermão, o padre falou de tolerância, misericórdia, perdão. Os presentes ouviam e percebiam, emocionados, como a vida que viviam era um espelho daquelas palavras.
A celebração foi envolvendo a todos que, praticamente, se esqueceram do caixão. Mas ao final da Missa, após a benção, o padre avisou:
"Agora, conforme o costume, antes do enterro, vamos nos despedir da falecida. Organizem uma fila para passar diante do caixão". E o padre tirou a tampa da urna.
O povo, novamente agitado pela curiosidade, passou lentamente diante daquele estranho ataúde. Cada um passava, olhava e saía com ar envergonhado.
Houve quem risse, meio sem graça. Houve quem chorasse...
A maioria ficou pensativa e calada...
Dentro do caixão, havia apenas um espelho...
sexta-feira, 6 de março de 2009
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