quarta-feira, 25 de março de 2009

A água para os idosos - Arnaldo Lichtenstein

Médico, clínico-geral do Hospital das Clínicas e professor colaborador do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP


Sempre que dou aula de Clínica Médica a estudantes do quarto ano de Medicina, lanço a pergunta: "quais as causas que mais fazem o vovô ou a vovó terem confusão mental?" Alguns arriscam: "Tumor na cabeça". Eu digo: "Não". Outros apostam: "Mal de Alzheimer". Respondo, novamente: "Não". A cada negativa a turma espanta-se. E fica ainda mais boquiaberta quando enumero os três responsáveis mais comuns: diabetes descontrolado; infecção urinária; e a família passou um dia inteiro no shopping, enquanto os idosos ficaram sozinhos em casa.

Parece brincadeira, mas não é. Constantemente vovô e vovó deixam de tomar líquidos. Quando falta gente em casa para lembrá-los, desidratam-se com rapidez.

A desidratação tende a ser grave e afeta todo o organismo. Pode causar confusão mental abrupta, queda de pressão arterial, aumento dos batimentos cardíacos, angina, coma e até morte.

Insisto: não é brincadeira. Ao nascermos, 90% do nosso corpo é constituído de água. Na adolescência, isso cai para 70%. Na fase adulta, para 60%. Na terceira idade, que começa aos 60 anos, temos pouco mais de 50% de água. Isso faz parte do processo natural de envelhecimento. Portanto, de saída, os idosos têm menor reserva hídrica. Mas há outro complicador: mesmo desidratados, eles não sentem vontade de tomar água, pois os seus mecanismos de equilíbrio interno não funcionam muito bem.

Explico: nós temos sensores de água em várias partes do organismo. São eles que verificam a adequação do nível de hidratação do organismo. Quando ele cai, aciona-se automaticamente um "alarme". Pouca água significa menor quantidade de sangue, de oxigênio e de sais minerais em nossas artérias e veias. Por isso, o corpo "pede" água. A informação é passada ao cérebro, a gente sente sede e sai em busca de líquidos.

Nos idosos, porém, esses mecanismos são menos eficientes. A detecção de falta de água corporal e a percepção da sede ficam prejudicadas. Alguns, ainda, devido a certas doenças, como a dolorosa artrose, evitam movimentar-se até para ir tomar água. Conclusão: idosos desidratam-se facilmente não apenas porque possuem reserva hídrica menor, mas também porque percebem menos a falta de água em seu corpo.

Além disso, para a desidratação ser grave, eles não precisam de grandes perdas, como diarréias, vômitos ou exposição intensa ao sol. Basta o dia estar quente, durante o verão, ou a umidade do ar baixar muito, como é comum no outono e no inverno.

Nessas situações, perde-se mais água pela respiração e pelo suor. Se não houver reposição adequada, é desidratação na certa. Mesmo que o idoso seja saudável, fica prejudicado o desempenho das reações químicas e funções de todo o seu organismo.

Por isso, aqui vão dois alertas. O primeiro é para vovós e vovôs: tornem voluntário o hábito de beber líquidos. Bebam toda vez que houver uma oportunidade. Por líquido entenda-se água, sucos, chás, água-de-coco, leite.

Sopa, gelatina e frutas ricas em água, como melão, melancia, abacaxi, laranja e tangerina, também funcionam. O importante é, a cada duas horas, botar algum líquido para dentro. Lembrem-se disso!

O segundo alerta é para os familiares: ofereçam constantemente líquidos aos idosos. Lembrem-lhes de que isso é vital. Ao mesmo tempo, fiquem atentos. Ao perceberem que estão rejeitando líquidos e, de um dia para o outro, ficam confusos, irritadiços, fora do ar, atenção. É quase certo que esses sintomas sejam decorrentes de desidratação. Líquido neles e rápido para um serviço médico.

5 comentários:

Ceci disse...

olá, recebi esse texto de uma amiga, verifiquei o nome do autor, cheguei a seu blog.... bem legal! Apresentação estimulante, alegre, bem humorada.
Feliz outubro... e muito mais pra vc e os seus

Unknown disse...

Dr.Arnaldo Lichtenstein
Dr.Arnaldo
Recebi esse texto de meu filho.
Sou uma pessÔA idosa com 87 anos e achei a sua tese espetacular. porque o meu marido com 89 anos não bebia quase agua e antes era alegre foi ficando depressivo. Passei a lhe dar bastante agua, vitaminas, sucos e a sua malhora foi rápida. Hoje ele é uma pessôa alegre e bem humorada.

Unknown disse...

Meu Deus!!!!!estou passando exatamente isso com meus pais...tudo pela diabete descompensada e infecção de urina...não tomam liquidos de jeito nenhum e agora diminuiram na alimentação...estão confusos, parecendo mesmo ALZEMHER...incrivel...gostei do comentario do Dr.
Vou forçar mais pra eles beberem liquidos...obrigada

Leônidas Loureiro disse...

E SE FOR ALZEMHER? COMO DIFERENCIAR DE UMA DESIDRATAÇÃO?
LEÔNIDAS LOUREIRO
BELÉM-PA

angela servedio disse...

Trabalho com idosos e acho muito importante poder repassar esse conhecimento.Adorei poder ler os comentários e depoimentos de idosos.obrigada