terça-feira, 21 de maio de 2013

A Pedra - Antonio Pereira (Apon)

O distraído, nela tropeçou,
o bruto a usou como projétil,
o empreendedor, usando-a construiu,
o campônio, cansado da lida,
dela fez assento.
Para os meninos foi brinquedo,
Drummond a poetizou,
Davi matou Golias...
Por fim;
o artista concebeu a mais bela escultura.
Em todos os casos,
a diferença não era a pedra.
Mas o homem.


Título: A pedra
Nome do autor: Antonio Pereira (Apon)
Link para a fonte original: http://www.aponarte.com.br/2007/08/pedra.html

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A arte de ficar calado - Felipe Peixoto Braga Netto

Saber ficar calado… É uma arte. Difícil, exige esforço e experiência. Não digo ficar calado sozinho, pois aí não há muita vantagem. Se sairmos a divagar, em voz alta, as perturbações que nos vão nos pensamentos, não demora estamos divagando num hospício.
Também não falo sobre ficar calado em público (…) Queria mesmo abordar a difícil arte de ficar calado a dois. É disso, em essência, que trata a bela frase em epígrafe. Os jovens — falo por mim, pelo que lembro — não sabem, definitivamente, ficar calados a dois. É um desconforto terrível, uma absurda e incômoda sensação de mal-estar, aliada a um desespero tolo em busca de assunto.
Depois, com o tempo, passamos a ser menos severos conosco e nos permitimos, vez por outra, a falta de assunto. Aliás, que necessidade absurda é essa de falar por falar, sem parar? Escrevi, certa vez, uma frase que depois li curioso: “Demorei a perceber que são os calados que têm algo a dizer…”.
Não sei que poeta falou — creio que o Quintana — que amizade é quando o silêncio a dois não se torna incômodo, e amor é quando o silêncio a dois torna-se prazeroso e íntimo. Algo assim, com outras palavras. Mas, no fundo, não é isso mesmo? Já experimentaram a sensação de ficar uns minutos calados, depois do amor? É uma conversa com Deus.

O que faz bem e o que faz mal - Martha Medeiros

Acho a maior graça. Tomate previne isso, cebola previne aquilo, chocolate faz bem, chocolate faz mal, um cálice diário de vinho não tem problema, qualquer gole de álcool é nocivo, tome água em abundância, mas não exagere…
Diante desta profusão de descobertas, acho mais seguro não mudar de hábitos.
Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal pra minha saúde.
Prazer faz muito bem. Dormir me deixa 0km. Ler um bom livro faz-me sentir novo em folha.
Viajar me deixa tenso antes de embarcar, mas depois rejuvenesço uns cinco anos.
Viagens aéreas não me incham as pernas; incham-me o cérebro, volto cheio de ideias.
Brigar me provoca arritmia cardíaca. Ver pessoas tendo acessos de estupidez me embrulha o estômago.
Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro me faz perder toda a fé no ser humano.
Caminhar faz bem, dançar faz bem, ficar em silêncio quando uma discussão está pegando fogo, faz muito bem! Você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada.
Acordar de manhã arrependido do que disse ou do que fez ontem à noite é prejudicial à saúde! E passar o resto do dia sem coragem para pedir desculpas, pior ainda!
Não pedir perdão pelas nossas mancadas dá câncer, não há tomate ou muzzarela que previna.
Ir ao cinema, conseguir um lugar central nas fileiras do fundo, não ter ninguém atrapalhando sua visão, nenhum celular tocando e o filme ser espetacular, uau! Cinema é melhor pra saúde do que pipoca!
Conversa é melhor do que piada. Exercício é melhor do que cirurgia.
Humor é melhor do que rancor.
Amigos são melhores do que gente influente. Economia é melhor do que dívida. Pergunta é melhor do que dúvida.
Sonhar é melhor do que nada!

Campanha publicitária do Citibank espalhada em Outdoors

“Crie filhos em vez de herdeiros.”
“Dinheiro só chama dinheiro, não chama para um cineminha, nem para tomar um sorvete.”
“Não deixe que o trabalho sobre sua mesa tampe a vista da janela.”
“Não é justo fazer declarações anuais ao Fisco e nenhuma para quem você ama.”
“Para cada almoço de negócios, faça um jantar à luz de velas.”
“Por que as semanas demoram tanto e os anos passam tão rapidinho?”
“Quantas reuniões foram mesmo esta semana? Reúna os amigos.”
“Trabalhe, trabalhe, trabalhe. Mas não se esqueça, vírgulas significam pausas…”
“…e quem sabe assim você seja promovido a melhor (amigo / pai / mãe / filho / filha / namorada / namorado / marido / esposa / irmão / irmã…) do mundo!”
“Você pode dar uma festa sem dinheiro. Mas não sem amigos.”
“Não eduque seu filho para ser rico, eduque-o para ser feliz. Assim, ele saberá o valor das coisas e não o seu preço.”

Falar Harmoniosamente - Autoria desconhecida

A fala é a expressão de nosso estado evolutivo.
A palavra saída da boca de um homem revela sua qualidade interior.
A fala é a ligação muito delicada entre o homem e seu ambiente.
É muito importante para o indivíduo e para o seu ambiente que todas as pessoas cultivem a arte de falar harmoniosamente.
O indivíduo poderá mudar de atitude, de comportamento, de decisão, mas a palavra que saiu de sua boca jamais poderá ser recolhida.
Se sentirmos que o ambiente será afetado negativamente se falarmos determinada coisa, é preferível não falar.
Muitas pessoas crêem que a sinceridade está em falar tudo que pensam.
Talvez isso seja falar sinceramente, mas também é falta de tato e resulta numa desarmonia que põe a perder a própria finalidade da fala.
A maior arte do falar repousa em pensar com clareza e expressar-se de forma harmoniosa, de modo a ser compreendido.
Sendo corretos em pensamento, as palavras que saem de nossa boca devem ser agradáveis, suaves e de boa qualidade.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Casa arrumada – Lena Gino

Casa arrumada é assim: Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas…
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo:
Aqui tem vida…
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo? Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte e vela de aniversário, tudo junto…
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda. A que está sempre pronta pros amigos, filhos, netos, pros vizinhos…
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias… Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela…
E reconhecer nela o seu lugar.

Viver ou juntar dinheiro? – Max Gehringer

Li em uma revista um artigo no qual jovens executivos davam receitas simples e práticas para qualquer um ficar rico. Aprendi, por exemplo, que se tivesse simplesmente deixado de tomar um cafezinho por dia, nos últimos 40 anos, teria economizado 30 mil reais. Se tivesse deixado de comer uma pizza por mês, 12 mil reais. E assim por diante…
Impressionado, peguei um papel e comecei a fazer contas. Para minha surpresa, descobri que hoje poderia estar milionário. Bastaria não ter tomado as caipirinhas que tomei, não ter feito muitas viagens que fiz, não ter comprado algumas das roupas caras que comprei. Principalmente, não ter desperdiçado meu dinheiro em itens supérfluos e descartáveis.
Ao concluir os cálculos, percebi que hoje poderia ter quase 500 mil reais na minha conta bancária. É claro que não tenho este dinheiro. Mas, se tivesse, sabe o que este dinheiro me permitiria fazer? Viajar, comprar roupas caras, me esbaldar em itens supérfluos e descartáveis, comer todas as pizzas que quisesse e tomar cafezinhos à vontade.
Por isso, me sinto muito feliz em ser pobre. Gastei meu dinheiro por prazer e com prazer. E recomendo aos jovens e brilhantes executivos que façam a mesma coisa que fiz. Caso contrário, chegarão aos 61 anos com uma montanha de dinheiro, mas sem ter vivido a vida.
Moral da história: “Não eduque seu filho para ser rico, eduque-o para ser feliz. Assim ele saberá o VALOR das coisas e não o seu PREÇO”.

“O Cravo e a Rosa” - Luiz Antônio Simas

Chegamos ao limite da insanidade da onda do politicamente correto.  Soube dia desses que as crianças, nas creches e escolas, não cantam mais O cravo brigou com a rosa. A explicação da professora do filho de um camarada foi comovente: a briga entre o cravo – o homem – e a rosa – a mulher – estimula a violência entre os casais. Na nova letra “o cravo encontrou a rosa/ debaixo de uma sacada/o cravo ficou feliz /e a rosa ficou encantada”.
Que diabos é isso? O próximo passo é enquadrar o cravo na Lei Maria da Penha. Será que esses doidos sabem que O cravo brigou com a rosa faz parte de uma suíte de 16 peças que Villa Lobos criou a partir de temas recolhidos no folclore brasileiro? É Villa Lobos, pô!
Outra música infantil que mudou de letra foi Samba Lelê. Na versão da minha infância o negócio era o seguinte: Samba Lelê tá doente/ Tá com a cabeça quebrada/ Samba Lelê precisava/ É de umas boas palmadas…
A palmada na bunda está proibida. Incita a violência contra a menina Lelê. A tia do maternal agora ensina assim: Samba Lelê tá doente/ Com uma febre malvada/  Assim que a febre passar/ A Lelê vai estudar.
Se eu fosse a Lelê, com uma versão dessas, torcia pra febre não passar nunca. Os amigos sabem de quem é  Samba Lelê? Villa Lobos de novo. Podiam até registrar a parceria. Ficaria assim: Samba Lelê, de Heitor Villa Lobos e Tia Nilda do Jardim Escola Criança Feliz.
Está aberta a discussão…
Comunico também que não se pode mais atirar o pau no gato, já que a música desperta nas crianças o desejo de maltratar os bichinhos. Quem entra na roda dança, nos dias atuais, não pode mais ter sete namorados para se casar com um. Sete namorados é coisa de menina fácil. Ninguém  mais é pobre ou rico de marré-de-si, para não despertar na garotada o sentido da desigualdade social entre os homens.
Dia desses alguém foi espinafrado porque disse que ecologia era, nos anos setenta, [coisa de viado]. Qual é o problema da frase? Ecologia, de fato, era vista como [coisa de viado]. Eu imagino se meu avô, com a alma de cangaceiro que possuía, soubesse, em mil novecentos e setenta e poucos, que algum filho estava militando na causa da preservação do mico leão dourado, em defesa das bromélias ou coisa que o valha. [Bicha louca, diria o velho.]
Vivemos tempos de não me toques que eu magôo. Quer dizer que ninguém mais pode usar a expressão coisa de viado? Que me desculpem os paladinos da cartilha da correção, mas isso é uma tremenda babaquice. O politicamente correto é a sepultura do bom humor, da criatividade, da boa sacanagem. A expressão coisa de viado não é, nem a pau (sem duplo sentido), ofensa a bicha alguma.
Daqui a pouco só chamaremos o anão – o popular pintor de roda-pé ou leão de chácara de baile infantil – de deficiente vertical. O crioulo – vulgo picolé de asfalto ou bola sete (depende do peso) – só pode ser chamado de afrodescendente. O branquelo – o famoso branco azedo ou Omo total – é um cidadão caucasiano desprovido de pigmentação mais evidente.
A mulher feia – aquela que nasceu pelo avesso, a soldado do quinto batalhão de artilharia pesada, também conhecida como o rascunho do mapa do inferno – é apenas a dona de um padrão divergente dos preceitos estéticos da contemporaneidade. O gordo – outrora conhecido como rolha de poço, chupeta do Vesúvio, Orca, baleia assassina e bujão – é o cidadão que está fora do peso ideal. O magricela não pode ser chamado de morto de fome, pau de virar tripa e Olívia Palito. O careca não é mais o aeroporto de mosquito, tobogã de piolho e pouca telha.
Nas aulas sobre o barroco mineiro, não poderei mais citar o Aleijadinho. Direi o seguinte: o escultor Antônio Francisco Lisboa tinha necessidades especiais… Não dá. O politicamente correto também gera a morte do apelido, essa tradição fabulosa do Brasil.
O recente Estatuto do Torcedor quer, com os olhos gordos na Copa e 2014, disciplinar as manifestações das torcidas de futebol. Ao invés de mandar o juiz pra pqp e o centroavante pereba tomar no [c...] cantaremos nas arquibancadas o allegro da Nona Sinfonia de Beethoven, entremeado pelo coro de Jesus, alegria dos homens, do velho Bach.
Falei em velho Bach e me lembrei de outra. A velhice não existe mais. O sujeito cheio de pelancas, doente, acabado, o famoso pé na cova,  aquele que dobrou o Cabo da Boa Esperança, o cliente do seguro funeral, o popular tá mais pra lá do que pra cá,  já tem motivos para sorrir na beira da sepultura. A velhice agora é simplesmente a “melhor idade”.
Se Deus quiser morreremos, todos, gozando da mais perfeita saúde. Defuntos? Não. Seremos os inquilinos do condomínio Cidade do pé junto.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

J’ACUSE! (Eu acuso!) – Tributo ao professor Kássio Vinícius Castro Gomes

Texto de Igor Pantuzza Wildmann, Advogado Doutor em Direito. Professor universitário

"Mon devoir est de parler, je ne veux pas être complice.”
(Émile Zola)
“Meu dever é falar, não quero ser cúmplice. (…)”
(Émile Zola)

 
Foi uma tragédia fartamente anunciada. Em milhares de casos, desrespeito. Em outros tantos, escárnio. Em Belo Horizonte, um estudante processa a escola e o professor que lhe deu notas baixas, alegando que teve danos morais ao ter que virar noites estudando para a prova subsequente. (Notem bem: o alegado “dano moral” do estudante foi ter que… estudar!).
A coisa não fica apenas por aí. Pelo Brasil afora, ameaças constantes. Ainda neste ano, uma professora brutalmente espancada por um aluno. O ápice desta escalada macabra não poderia ser outro.
O professor Kássio Vinícius Castro Gomes pagou com sua vida, com seu futuro, com o futuro de sua esposa e filhas, com as lágrimas eternas de sua mãe, pela irresponsabilidade que há muito vem tomando conta dos ambientes escolares.
Há uma lógica perversa por trás dessa asquerosa escalada. A promoção do desrespeito aos valores, ao bom senso, às regras de bem viver e à autoridade foi elevada a método de ensino e imperativo de convivência supostamente democrática.
No início, foi o maio de 68, em Paris: gritava-se nas ruas que “era proibido proibir”. Depois, a geração do “não bate, que traumatiza”. A coisa continuou: “Não reprove, que atrapalha”. Não dê provas difíceis, pois “temos que respeitar o perfil dos nossos alunos”. Aliás, “prova não prova nada”. Deixe o aluno “construir seu conhecimento.” Não vamos avaliar o aluno. Pensando bem, “é o aluno que vai avaliar o professor”. Afinal de contas, ele está pagando…
E como a estupidez humana não tem limite, a avacalhação geral epidêmica, travestida de “novo paradigma” (Irc!), prosseguiu a todo vapor, em vários setores: “o bandido é vítima da sociedade”, “temos que mudar ‘tudo isso que está aí’; “mais importante que ter conhecimento é ser ‘crítico’.”
Claro que a intelectualidade rasa de pedagogos de panfleto e burocratas carreiristas ganhou um imenso impulso com a mercantilização desabrida do ensino: agora, o discurso anti-disciplina é anabolizado pela lógica doentia e desonesta da paparicação ao aluno – cliente…
Estamos criando gerações em que uma parcela considerável de nossos cidadãos é composta de adultos mimados, despreparados para os problemas, decepções e desafios da vida, incapazes de lidar com conflitos e, pior, dotados de uma delirante certeza de que “o mundo lhes deve algo”.
Um desses jovens, revoltado com suas notas baixas, cravou uma faca com dezoito centímetros de lâmina, bem no coração de um professor. Tirou-lhe tudo o que tinha e tudo o que poderia vir a ter, sentir, amar.
Ao assassino, corretamente , deverão ser concedidos todos os direitos que a lei prevê: o direito ao tratamento humano, o direito à ampla defesa, o direito de não ser condenado em pena maior do que a prevista em lei. Tudo isso, e muito mais, fará parte do devido processo legal, que se iniciará com a denúncia, a ser apresentada pelo Ministério Público. A acusação penal a o autor do homicídio covarde virá do promotor de justiça. Mas, com a licença devida ao célebre texto de Emile Zola, EU ACUSO tantos outros que estão por trás do cabo da faca:
EU ACUSO a pedagogia ideologizada, que pretende relativizar tudo e todos, equiparando certo ao errado e vice-versa;
EU ACUSO os pseudo-intelectuais de panfleto, que romantizam a “revolta dos oprimidos”e justificam a violência por parte daqueles que se sentem vítimas;
EU ACUSO os burocratas da educação e suas cartilhas do politicamente correto, que impedem a escola de constar faltas graves no histórico escolar, mesmo de alunos criminosos, deixando-os livres para tumultuar e cometer crimes em outras escolas;
EU ACUSO a hipocrisia de exigir professores com mestrado e doutorado, muitos dos quais, no dia a dia, serão pressionados a dar provas bem tranqüilas, provas de mentirinha, para “adequar a avaliação ao perfil dos alunos”;
EU ACUSO os últimos tantos Ministros da Educação, que em nome de estatísticas hipócritas e interesses privados, permitiram a proliferação de cursos superiores completamente sem condições, freqüentados por alunos igualmente sem condições de ali estar;
EU ACUSO a mercantilização cretina do ensino, a venda de diplomas e títulos sem o mínimo de interesse e de responsabilidade com o conteúdo e formação dos alunos, bem como de suas futuras missões na sociedade;
EU ACUSO a lógica doentia e hipócrita do aluno-cliente, cada vez menos exigido e cada vez mais paparicado e enganado, o qual, finge que não sabe que, para a escola que lhe paparica, seu boleto hoje vale muito mais do que seu sucesso e sua felicidade amanhã;
EU ACUSO a hipocrisia das escolas que jamais reprovam seus alunos, as quais formam analfabetos funcionais só para maquiar estatísticas do IDH e dizer ao mundo que o número de alunos com segundo grau completo cresceu “tantos por cento”;
EU ACUSO os que aplaudem tais escolas e ainda trabalham pela massificação do ensino superior, sem entender que o aluno que ali chega deve ter o mínimo de preparo civilizacional, intelectual e moral, pois estamos chegando ao tempo no qual o aluno “terá direito” de se tornar médico ou advogado sem sequer saber escrever, tudo para o desespero de seus futuros clientes-cobaia;
EU ACUSO os que agora falam em promover um “novo paradigma”, uma “ nova cultura de paz”, pois o que se deve promover é a boa e VELHA cultura da “vergonha na cara”, do respeito às normas, à autoridade e do respeito ao ambiente universitário como um ambiente de busca do conhecimento;
EU ACUSO os “cabeça – boa” que acham e ensinam que disciplina é “careta”, que respeito às normas é coisa de velho decrépito,
EU ACUSO os métodos de avaliação de professores, que se tornaram templos de vendilhões, nos quais votos são comprados e vendidos em troca de piadinhas, sorrisos e notas fáceis;
EU ACUSO os alunos que protestam contra a impunidade dos políticos, mas gabam-se de colar nas provas, assim como ACUSO os professores que, vendo tais alunos colarem, não têm coragem de aplicar a devida punição.
EU VEEMENTEMENTE ACUSO os diretores e coordenadores que impedem os professores de punir os alunos que colam, ou pretendem que os professores sejam “promoters” de seus cursos;
EU ACUSO os diretores e coordenadores que toleram condutas desrespeitosas de alunos contra professores e funcionários, pois sua omissão quanto aos pequenos incidentes é diretamente responsável pela ocorrência dos incidentes maiores;
Uma multidão de filhos tiranos que se tornam alunos -clientes, serão despejados na vida como adultos eternamente infantilizados e totalmente despreparados, tanto tecnicamente para o exercício da profissão, quanto pessoalmente para os conflitos, desafios e decepções do dia a dia.
Ensimesmados em seus delírios de perseguição ou de grandeza, estes jovens mostram cada vez menos preparo na delicada e essencial arte que é lidar com aquele ser complexo e imprevisível que podemos chamar de “o outro”.
A infantilização eterna cria a seguinte e horrenda lógica, hoje na cabeça de muitas crianças em corpo de adulto: “Se eu tiro nota baixa, a culpa é do professor. Se não tenho dinheiro, a culpa é do patrão. Se me drogo, a culpa é dos meus pais. Se furto, roubo, mato, a culpa é do sistema. Eu, sou apenas uma vítima. Uma eterna vítima. O opressor é você, que trabalha, paga suas contas em dia e vive sua vida. Minhas coisas não saíram como eu queria. Estou com muita raiva.
Quando eu era criança, eu batia os pés no chão. Mas agora, fisicamente, eu cresci. Portanto, você pode ser o próximo.”
Qualquer um de nós pode ser o próximo, por qualquer motivo. Em qualquer lugar, dentro ou fora das escolas. A facada ignóbil no professor Kássio dói no peito de todos nós. Que a sua morte não seja em vão. É hora de repensarmos a educação brasileira e abrirmos mão dos modismos e invencionices. A melhor “nova cultura de paz” que podemos adotar nas escolas e universidades é fazermos as pazes com os bons e velhos conceitos de seriedade, responsabilidade, disciplina e estudo de verdade.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Gestão certa leva ao peso ideal - Dr. Alessandro Loiola

Há não muito tempo, em uma galáxia não muito distante, cheguei a pesar 98 Kg. Para quem tem 1,73 cm de altura, isso é um bocado de peso. E minha pressão na época – 200/110 nos piores dias – me lembrava bem desse fato.
Foi então que decidi fazer algo básico. A qualidade de vida desde sempre foi um tabuleiro apoiado em quatro pernas sólidas: alimentação, sono, atividade física e controle do estresse. Desestabilize uma dessas pernas e todo o tabuleiro vai ao chão. Resolvi atacar cada um desses apoios como um administrador de empresas.
O corpo é uma firma, uma companhia com 1 trilhão de funcionários (células), e sua consciência é a mesa diretora. É preciso uma seqüência de boas decisões para alcançar o sucesso, mas basta uma decisão equivocada para antecipar aquele contrato de prestação de serviços funerários.

Qualidade
Para administrar bem, o segredo está nos números. E no gerenciamento de qualidade da empresa Você Ltda, o peso é um indicador estratégico. Se você está muito acima do seu peso, este número já diz bastante sobre seus hábitos, sua alimentação e de como você tem conduzido seus dias.
Pois bem. Em quatro meses, sem tomar remédios ou deixar de comer as coisas que gosto, mantendo o ritmo de trabalho nas habituais 80h por semana, perdi 17 kg. Apesar de ainda estar longe do ideal, a pressão normalizou em inofensivos 120/70, passei ser capaz de fazer corridas diárias de 5 km sem necessidade de chamar uma ambulância, e o tabuleiro voltou ao prumo.
Se você quer saber como fazer as contas para obter esse tipo de resultado, pegue aí um lápis e me acompanhe.
- Comece pelo Índice de Massa Corporal ou IMC. Ele é calculado dividindo-se o peso pela altura ao quadrado: a maioria das tabelas diz que você deveria ter um IMC em torno de 19. Sinceramente, um IMC de 19 dá a impressão de que está faltando comida na sua casa. Por outro lado, um IMC de 25 oferece um resultado também saudável e esteticamente mais agradável.
Então, digamos, para uma pessoa de 1,60m de altura, que está mirando em um IMC de 25, qual seria o peso ideal? Moleza, basta inverter a fórmula:
Peso alvo = IMC de 25 multiplicado pela altura ao quadrado
Portanto:
Peso alvo = 25 x (1,6 x 1,6) = 25 x 2,56
Peso alvo = 64 Kg. Ok até aqui?
Mas uma pessoa que pesa 64 Kg deve ingerir quantas calorias por dia?
Para cada Kg de peso, seu corpo precisa de 1,3 kilo-calorias (Kcal) por hora para funcionar bem. Uma pessoa de 64 Kg precisaria então de aproximadamente 1996,8 kcal/dia (64 Kg x 1,3 kcal x 24h). Independente do peso atual do sujeito de 1,60m, o fato é que, para aquela altura, ele deveria estar comendo cerca de 2000 calorias por dia.
Anote
Para manter as calorias dentro do seu cálculo, tenha uma agenda. Uma agendinha pequena, daquelas que cabem na bolsa. E cole nela uma caneta. Se Deus lhe perguntar se você tem uma caneta para emprestar, pegue outra. Nunca aquela da agenda. A caneta da agenda não deve sair da agenda. Nem por ameaça do apocalipse.
Cada página da agenda deve ter cerca de 15 linhas. Anote tudo que você comer. Se suas refeições não couberem nessas linhas, você está indo além do que deveria. Pense comigo: são 3 refeições principais por dia, intercaladas com 3 lanches rápidos. Se cada refeição principal é composta por 4 itens (pão integral, queijo, presunto e suco no café; arroz, feijão, salada e carne no almoço, etc), e cada lanche rápido é constituído por 1 fruta, então temos:
- Quatro itens das refeições principais x 3 refeições principais por dia = 12 itens
- Uma fruta entre o café e o almoço, entre o almoço e a janta, e entre a janta e o horário de dormir = 3 itens.
Somados, são 15 itens cravados que devem caber nas 15 linhas da agenda e totalizar as calorias ideais. Use a criatividade para fazer este casamento. É possível comer de tudo, bolo, doce, tomar cerveja, o que for, mas suas calorias devem estar dentro da meta.
Ao final de cada dia, procure na internet pelas tabelas de calorias dos alimentos e faça as contas com honestidade. É provável que nos primeiros dias você erre bastante, mas pouco a pouco começará a acertar mais e mais.
Sempre que sua contabilidade no final no dia estiver na meta ou dentro de uma variação de 100 pontos para cima ou para baixo, roube uma canetinha hidrocor de seus filhos ou sobrinhos e pinte as bordas daquela página de vermelho. Aquela página servirá de referência no futuro.
No dia seguinte, procure fazer as refeições utilizando itens diferentes. Depois de algumas semanas, você terá várias páginas de bordas vermelhas com configurações alimentares diversas que podem ser consultadas como seu cardápio ideal, poupando tempo.
Tempo
Muito bem. Agora que você sabe quantas calorias deveria estar comendo e como distribui-las ao longo do dia, está na hora de calcular o tempo. Você deve ter uma expectativa realista para seu cronograma de redução de peso.
Enquanto você reaprende a comer, seu corpo vai cortando os gastos nos setores menos importantes (leia-se: reservas de gordura), que começarão a desaparecer. A nova rotina, mirando no IMC de 25, resultará em uma perda de 2-3 Kg por mês.
Se você precisa perder 10 Kg, irá levar uns 5 meses. Se precisa perder 20 Kg, serão 10 meses, e assim por diante. Com atividades físicas diárias é possível incrementar a velocidade da perda de peso – converse com um personal trainer de sua confiança!
Realidade
A grande vantagem deste método não está apenas na redução do peso, mas no bônus que o acompanha. Quando você atingir seu peso-alvo, terá aprendido a se alimentar como alguém que pesa aquilo. Não adianta ter 1,60m de altura e fazer dietas de 1.000 calorias/dia. Dietas surreais de 1.000 calorias/dia são boas para pessoas de 1,20m de altura e que deveriam pesar 30 Kg. Esqueça isso.


Emagrecer é como disparar uma flecha. Se mirar com muita força ou fraco demais, você não acertará o alvo. Mire no peso ideal e nas calorias ideais, nem mais nem menos. Varie o conteúdo de suas refeições com disciplina e paciência. E depois reúna seus amigos para contar sobre quando, há não muito tempo, em uma galáxia não muito distante, você estava a apenas um passo do peso ideal.

Mais de 100 motivos pra você gostar de samba e participar de uma roda - Fabiana Cozza



 Dia  02/12 - Dia do SAMBA!!!


1. traz alegria
2. é muito divertido
3. melhora a auto-estima
4. nos torna mais sociáveis
5. é um ótimo motivo pra encontrar amigos
6. é um ótimo motivo pra fazer amigos
7. é um ambiente especial para se reconciliar
8. é um exercício de cidadania
9. é uma ótima atividade cultural
10. ensina a gente sobre história do Brasil
11. é um exercício da coletividade
12.excelente remédio para chorar as mágoas
13.excelente remédio para curar as mágoas
14. cantar um bom samba liberta das angústias
15. é um lindo presente de despedida
16. é um hino de saudação ao encontro
17. é lindo para celebrar uma conquista importante
18. é uma oportunidade rara de experimentar uma feijoada maravilhosa
19. é um ambiente propício para “beber uma gelada”
20. é um exercício de civilidade
21. sambar é ótimo para o corpo
22. sambar e cantar são ótimos para a mente e para o espírito
23. ajuda a burlar a timidez
24. encoraja quem quer se declarar
25. ouvir o samba dos mestres faz bem aos ouvidos
26. faz bem à saúde da música brasileira
27. é identidade (RG) do Brasil no mundo
28. é ótimo para esfriar a cabeça e desestressar
29. nos apresenta grandes poetas
30. desenvolve a musicalidade
31. nos apresenta a um mundo polirritmico cuja complexidade faz inveja a muito estrangeiro
32. a gente ri e sorri bastante
33. a gente vê muita gente feliz
34. a gente se abraça muito
35. a gente beija bastante também
36. a gente chora de felicidade
37. dá vontade de batucar
38. encontra muita gente elegante, “esticadinha”
39. se depara com raridades: sapato bicolor e chapéu Panamá
40. encontra outras raridades: verdadeiros personagens da vida cotidiana
41. aprende a levar a vida com malemolência
42. tem a oportunidade de aplaudir pessoas genuinamente talentosas
43. provar muita comida da culinária afrobrasileira que dá “caldo” com samba: caldo de mocotó, caldo de feijão com torresmo, a deliciosa feijoada
44. se sente brasileiro
45. ouvir mestres como Cartola
46. Noel Rosa
47. Paulo Vanzolini
48. Nelson Cavaquinho
49. Geraldo Filme
50. Nei Lopes
51. Wilson Moreira
52. Ataulfo Alves
53. Ciro Monteiro
54. Ary Barroso
55. Nelson Sargento
56. Ideval Anselmo
57. Wilson das Neves
58. Chico Buarque
59. Jorge Aragão
60. Casquinha
61. Wanderley Monteiro
62. Argemiro
63. Paulinho da Viola
64. Elton Medeiros
65. Zimbo Trio
66. Dona Ivone Lara
67. Emilio Santiago
68. Delcio Carvalho
69. Roque Ferreira
70. Bide
71. Candeia
72. Luiz Carlos da Vila
73. Mauro Duarte
74. Miltinho
75. Wilson Simonal
76. Jorge Veiga
77. Dolores Duran
78. João Nogueira
79. Nilze Carvalho
80. Assis Valente
81. Djavan
82. Germano Mathias
83. Adoniran Barbosa
84. Xangô da Mangueira
85. Leci Brandão
86. Arlindo Cruz
87. Zeca Pagodinho
88. Jovelina Pérola Negra
89. Eduardo Gudin
90. Walter Alfaiate
91. Clementina de Jesus
92. Almir Guineto
93. Martinho da Vila
94. João Bosco
95. Bebeto
96. Manacéa
97. Originais do Samba
98. Baden Powell
99. Vinicius de Moraes
100. Dionísio Barbosa
101. Oswaldinho da Cuíca
102. Murilão
103. Tias Baianas
104. Sombrinha
105. Carlinhos Vergueiro
106. PQD
107. Mestre Marçal
108. Padeirinho
109. Tantinho da Mangueira
110. Talismã
111. Silas de Oliveira
112. Dona Edith do Prato
113. Ismael Silva
114. Dorival Caymmi
115. Monarco da Portela
116. Mauro Diniz
117. Donga
118. João da Bahiana
119. Tia Surica
120. Monsueto
121. Aldir Blanc
122. Sergio Santos
123. Paulo Cesar Pinheiro
124. Jamelão
125. Roberto Silva
126. Oswaldinho “Macú”
127. Roberto Ribeiro
128. Clara Nunes
129. Alcione
130. Cristina Buarque
131. Aniceto
132. Beth Carvalho
133. Zinco
134. Elza Soares
135. Zé Ketti
136. Elizeth Cardoso
137. Hermínio Bello de Carvalho
138. Leny Andrade
139. Anescar
140. Sinhô
141. Rixa
142. Aracy de Almeida
143.Jair Rodrigues
144. Geraldo Pereira
145. Jaguarão
146. Tiganá
147. Bezerra da Silva
148. Carlos Cachaça
149. Teresa Cristina
150. Rodrigo Campos
151. Mariene de Castro
152. Aloisio Menezes
153. Kiko Dinucci
154. Roque Ferreira
155. Adriana Moreira
156. Diogo Nogueira
157. T.Kaçula
158. Magno Sousá
159. Ivison Pessoa
160. Maurilio Oliveira
161. Vitor Pessoa
162. Fernandinho do Cavaco
163. Graça Braga
164. Paqüera
165. Alemão do Cavaco
166. Áurea Martins
167. Luiza Dionísio
168. Moiseis Marques
169. Pedro Miranda
170. Nega Duda


Esta lista pode e deve ser completada por você, leitor… Fiz numa “tacada” só, lembrando dos compositores que cantei, que conheço e admiro. Mas o Brasil é gigante, do tamanho do samba… Salve!

O nome do jogo - Alessandro Loiola

Imagine que você tem uma empresa – de telemarketing, por exemplo. O sujeito do RH acaba de lhe enviar um novo funcionário, o Marcão. Marcão é um cara gente boa, amigo de todo mundo, mas ele não conhece o jogo. Quer trabalhar, ganhar dinheiro, tem até boa formação, mas não conhece o jogo.
Então com toda santa paciência do mundo você se senta para explicar:
- Marcão, é o seguinte: você irá fazer 10 ligações por dia. Por vivência e experiência, sabemos que de cada 10 ligações, 1 cliente fecha com nossa companhia. Muito bem. A cada cliente que fechar um contrato, você irá preencher esta etiqueta com os dados de identificação do camarada. Número do contrato, telefone, endereço, etc. Ok até aqui?
Marcão balança afirmativamente a cabeça.
- No final do dia, você irá pegar as etiquetas preenchidas e depositar nessa caixa.
Você pega a caixa e a coloca delicadamente sobre a mesa. Parece uma miniatura de urna para depositar votos, um cofre trapezóide de madeira clara com uns 10cm de altura, uma fenda em cima, uma pequena dobradiça arás e um fecho com cadeado na frente.
- Bacana, chefe, tem até meu nome! – os olhos do Marcão ameaçam marejar de ternura enquanto ele segura a pequenina urna como um filhote delicado.
- Eu sei Marcão.  Eu sei. Foco agora, Marcão. Foco. – você puxa a urna de volta para o seu lado da mesa. – No final do expediente, você irá depositar aqui os cadastros que preencheu. Irá fazer isso todo dia. E na sexta-feira vai trazer sua urna aqui, pra gente abrir e contar as etiquetas. Tranquilo?
- Moleza.
- Beleza, Marcão! Então mãos à obra!
- É isso aí, chefia!
Chega a sexta-feira e Marcão vem com sua urna. Existe uma certa expectativa no ar. Ele esfrega as mãos enquanto você pega a chave, abre o cadeado e começa a retirar as etiquetas de cadastro.
- Marcão, meu filho.
- Hum.
- Você deveria fazer pelo menos 10 ligações por dia. De cada 10 ligações, 1 cliente. Fazendo isso 5 dias por semana, deveriam ter pelo menos 5 etiquetas de cadastro aqui. Correto?
- Hum.
- Quantas tem, Marcão?
- Duas, chefe.
- Duas.
- Mas veja bem…
- Marcão – você interrompe -, dê uma boa examinada essa urna. Sabe por que ela é tão pequena?
- Não.
- Pra que “veja bem” não caiba dentro dela.
- Mas chefe, o lance foi que…
- … E você tá vendo essa fenda aqui em cima? – você mostra a fenda onde as etiquetas são depositadas. – Sabe por que ela é tão fina e estreita?
- Sei lá…
- Ela foi feita assim para que desculpas também não caibam na caixa. Sabe o que cabe aqui na sua urna, Marcão? Números. E os números são o segredo do jogo, eles dizem tudo. Se você trouxer 5 etiquetas em uma semana, vou saber que trabalhou corretamente. Se trouxer 10, vou entender que trabalhou além do limite e é um sujeito de destaque. E se trouxer 50, vai virar chefe de equipe. Você pode até conseguir a vaga pelo QI (Quem Indica), mas são os números que irão lhe manter aqui. “Números” é o nome do jogo.
Por muitos séculos vivemos sob o empirismo de Aristóteles, mas aí veio o Renascimento e ressuscitaram Pitágoras. Tudo é pitagorismo agora. Tudo são números. Até – e especialmente – o seu peso.
O número exato de cromossomos em suas células programou seu corpo para crescer uma determinada altura, e dentro desta altura você deveria ter um determinado peso – o peso ideal.
Consumindo uma quantidade de calorias proporcional ao seu peso ideal, o corpo automaticamente irá se adaptar a essa nova realidade e em alguns meses você terá uma nova silhueta. É assim que a máquina humana opera.
Números não aceitam desculpas. Se você passou por um nutricionista e ingressou em um programa para reduzir seu peso, acha que está fazendo tudo certo mas após 30 dias não observou qualquer mudança significativa na balança, acorde!
Algo está errado com a sua abordagem. Não fique dizendo para seus botões que você teve disciplina e fez tudo certo (“a verdade é que eu tenho facilidade para engordar e dificuldade para emagrecer…”).
Pelamordetodosossantos. Não seja o Marcão, não se deixe enganar nem tampouco engane a si mesmo. Números não mentem. Ouça os números. Compreenda-os e siga-os.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Sua majestade, a criança - Martha Medeiros

Tem se falado muito na falta de limites das crianças de hoje. A garotada manda e desmanda nos pais e estes, sentindo-se culpados pelo pouco tempo que ficam em casa, aceitam a troca de hierarquia – hoje os adultos é que recebem ordens e reprimendas, e não demora serão colocados de castigo.
Segundo os pedagogos, precisamos voltar a dizer não para a pirralhada. É a ausência do não que faz com que meninas saiam de madrugada sem avisar para onde estão indo, garotos peguem o carro do pai sem ter habilitação e todos sejam estimulados a consumir descontroladamente, a não dar explicações e a viver sem custódia. Mas onde encontrar energia para discutir com filho? Pai e mãe se jogam no sofá e pensam: “Façam o que bem entender, desde que nos deixem quietos vendo a novela”.
(…) Se existe uma liberalidade e agressividade maior hoje entre as crianças, é claro que o fato de as mulheres terem entrado no mercado de trabalho e deixado em aberto o posto de rainhas do lar tem algo a ver com isso. Mas nem me passa pela cabeça estimular um meia-volta, volver. A sociedade avançou com a participação das mulheres e esse é um caminho sem retorno. O que compromete o destino de uma criança é não ter sido amada. E muitas não foram, mesmo com os pais por perto.
A falta de amor é a origem de grande parte das neuroses, psicoses e desvios de conduta. Uma criança que não se sentiu amada pode cometer erros de avaliação sobre si própria e cometer desvarios para alcançar uma autoestima que está sempre fora de alcance.
(…) A criança precisa se sentir amada de verdade, e as demonstrações não se dão apenas com beijos e abraços, e tampouco com proibições sem justa causa. (…) É preciso prestar atenção no filho, controlar seus hábitos, perceber seus silêncios, demonstrar interesse pelo que ele faz, pelo que ele pensa, quem são seus amigos, quais suas aptidões, do que ele se ressente, o que está calando, por que está chorando, se sua rebeldia é uma maneira de pedir socorro, se está precisando conversar, se o que tem sentido é demasiado pesado pra ele, se precisa repartir suas dores, se está sendo bem acolhido pela escola, se não estão exigindo dele mais do que ele pode dar, se não foram transferidas responsabilidades para ele que são incompatíveis com sua idade, se há como entender e aceitar seus desejos, se ele está arriscando a própria vida e precisa de freio, se estamos deixando ele sonhar alto demais, se estamos induzindo que ele sonhe de menos, se ele está recebendo os estímulos certos ou desenvolvendo preconceitos generalizados. Dá uma trabalheira, mas isso é amar.
(…) Com amor, ao contrário, toda criança sente-se ilustríssima, majestade, vossa excelência, sem fazer mau uso do cargo. Será confiante e segura como um rei, não se violentará para agradar os outros (usando drogas ou imitando o que os outros fazem para ser aceita num grupo). Será o que é, afinada com o próprio eixo. E se transformará num adulto bem resolvido, porque a lembrança da infância terá deixado nela a dimensão da importância que ela tem.

Texto de 15/11 - Aniversário do Radio Vivo da radio Itatiaia

Que posso desejar para você hoje?
Que as verdadeiras amizades continuem.
Que as lágrimas sejam poucas e compartilhadas.
Que as alegrias estejam sempre presentes
e sejam festejadas por todos.
Que o carinho esteja presente em um simples alô, bom dia,
ou em qualquer outra frase mesmo que dita rapidamente.
Que os corações estejam sempre abertos para novas amizades,
novos amores, novas conquistas.
Que Deus esteja sempre com sua mão estendida
apontando o caminho correto.
Que as coisas pequenas como a inveja ou desamor,
sejam retiradas de nossa vida.
Que aquele que necessite de ajuda
encontre sempre em nós uma animadora palavra amiga.
Que a verdade sempre esteja acima de tudo.
Que o perdão e a compreensão superem
as amarguras e as desavenças.
Que este nosso pequeno mundo virtual
seja cada vez mais humano.
Que tudo que sonhamos se transforme em realidade.
Que o amor pelo próximo seja nossa meta absoluta. (…)
Que nossa jornada de hoje esteja repleta de alegria e de intenso agradecimento a você, ouvinte.
Rádio Vivo: há trinta e quatro anos no ar.

Marido e mulher - texto extraído da revista “Seleções”

Uma noite, a mulher pergunta ao marido:
- O que há com você, César? Porque está tão inquieto?
- Lucrecia, não consigo dormir, não sei o que há de errado comigo – respondeu ele.
- Por que não vai até a cozinha e bebe um copo de leite morno adoçado com mel?
- Ótima ideia, meu amor.
Antes que o marido deixasse o quarto, a mulher emendou:
- Ah, mas quando terminar lave a jarra e o copo, enxugue-os e coloque-os de volta no lugar. E não esqueça de colocar o leite na geladeira e o mel no armário. E se sujar o fogão ou a mesa, limpe tudo, está bem?
O marido então respondeu:
- Deixa pra lá, já estou com sono.

Leilão de jardim - Cecília Meireles

Quem me compra um jardim com flores?
borboletas de muitas cores,
lavadeiras e passarinhos,
ovos verdes e azuis nos ninhos?
Quem me compra este caracol?
Quem me compra um raio de sol?
Um lagarto entre o muro e a hera,
uma estátua da Primavera?
Quem me compra este formigueiro?
E este sapo, que é jardineiro?
E a cigarra e a sua canção?
E o grilinho dentro do chão?
(Este é meu leilão!)

Procura-se

Homens e mulheres com a paciência de Jó,
a sabedoria de Salomão
a esperança de uma mulher, grávida do primeiro filho
e a habilidade para preparar crianças e jovens para viverem o futuro sob condições adversas e muitas vezes perigosas.
Os candidatos devem ser habilitados a preencher o vazio deixado por pais ausentes e satisfazer as demandas não resolvidas por políticos e burocratas de plantão.
Deverão também transmitir valores sadios, e serem coerentes com eles.
Horário de trabalho: vinte e quatro horas por dia, todos os dias da vida.
Salário? Talvez um dia melhore.
Recompensa: a maior parte, intangível, mas, certamente, inesquecível.
Procura-se, na verdade, homens e mulheres que saibam ser simplesmente seres humanos melhores do que temos sido.
O presente precisa. O futuro merece.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Fumante

Charge do Rick Jaime

As colheres de cabo comprido - Autoria desconhecida

Dizem que Deus convidou um homem para conhecer o céu e o inferno. Foram a primeiro ao inferno. Ao abrirem a porta viram uma sala cujo centro havia um caldeirão de sopa e à sua volta estavam sentadas pessoas famintas e desesperadas. Cada uma delas segurava uma colher de cabo comprido, que lhes permitia alcançar o caldeirão, mas não a própria boca. O sofrimento era grande. Em seguida Deus levou o homem para conhecer o céu. Entraram em uma sala idêntica à primeira: havia o mesmo caldeirão, as pessoas em volta, as colheres de cabo comprido. A diferença é que todos estavam saciados.
-    Eu não compreendo- disse o homem a Deus- por que aqui as pessoas estão tão felizes enquanto  na outra sala morreram de aflição, se é tudo igual?
Deus sorriu e respondeu:
-    Você não percebeu? É porque aqui eles aprenderam a dar comida uns aos outros.

Mães morrem quando querem - Autoria Desconhecida

Eu tinha 7 anos quando matei minha mãe pela primeira vez.

Eu não a queria junto a mim quando chegasse à escola em meu 1º dia de aula. Eu me achava forte o suficiente para enfrentar os desafios que a nova vida iria me trazer. Poucas semanas depois descobri aliviado que ela ainda estava lá, pronta para me defender não somente daqueles garotos brutamontes que me ameaçavam, como das dificuldades intransponíveis da tabuada.

Quando fiz 14 anos eu a matei novamente.

Não a queria me impondo regras ou limites, nem que me impedisse de viver a plenitude dos vôos juvenis. Mas logo no primeiro porre eu felizmente a redescobri viva, foi quando ela não só me curou da ressaca, como impediu que eu levasse uma vergonhosa surra de meu pai.

Aos 18 anos achei que mataria minha mãe definitivamente, sem chances para ressurreição.

Entrara na faculdade,iria morar em república, faria política estudantil, atividades em que a presença materna não cabia em nenhuma hipótese. Ledo engano: quando me descobri confuso sobre qual rumo seguir voltei à casa materna, único espaço possível de guarida e compreensão.

Aos 23 anos me dei conta de que a morte materna era possível, apenas requeria lentidão…

Foi quando me casei, finquei bandeira de independência e segui viagem. Mas bastou nascer a primeira filha para descobrir que o bicho mãe se transformara num espécime ainda mais vigoroso chamado avó. Para quem ainda não viveu a experiência, avó é mãe em dose dupla…

Apesar de tudo continuei acreditando na tese da morte lenta e demorada, e aos poucos fui me sentindo mais distante e autônomo, mesmo que a intervalos regulares ela reaparecesse em minha vida desempenhando papéis importantes e únicos, papéis que somente ela poderia protagonizar…

Mas o final dessa história, ao contrário do que eu sempre imaginei, foi ela quem definiu: quando menos esperava, ela decidiu morrer. Assim, sem mais, nem menos, sem pedir licença ou permissão, sem data marcada ou ocasião para despedida. Ela simplesmente se foi, deixando a lição que mães são para sempre.

Ao contrário do que sempre imaginei, são elas que decidem o quanto esta eternidade pode durar em vida, e o quanto fica relegado para o etéreo terreno da saudade..

Não sei se a vida é curta ou longa demais pra nós, mas sei que devemos amar as pessoas enquanto elas estão por aqui. É por isso que temos que amá-las sempre e não matá-las em vida.